Agricultura familiar quer garantir espaço na produção de biodiesel
Por Maurício Thuswohl, da Carta Maior
Obrigatoriedade da mistura de pelo menos 2% de
biodiesel em todo o óleo diesel convencional produzido no Brasil começa a
vigorar em janeiro de 2008. Governo aposta no Selo Combustível Social para
incentivar participação dos pequenos agricultores. Contag aponta problemas no
programa.
BRASÍLIA – O modelo de
participação dos pequenos agricultores no processo de expansão dos
biocombustíveis no Brasil foi um dos principais pontos de discussão entre
governo federal e representantes dos trabalhadores rurais durante a IV Feira
Nacional de Agricultura Familiar e Reforma Agrária, que se encerrou no domingo
(7) em Brasília. Ambas
as partes concordaram que o aprofundamento deste debate é urgente, pois em
janeiro do ano que vem começa a vigorar a obrigatoriedade da mistura de pelo
menos 2% de biodiesel em todo o óleo diesel convencional produzido no país.
A demanda por biodiesel em 2008, segundo
estimativas do governo, ultrapassará a marca de um bilhão de litros. O desafio
é dar condições aos agricultores familiares para atender a esse novo mercado
sem serem engolidos pelos gigantes do agronegócio. De um lado, o Ministério do
Desenvolvimento Agrário (MDA) avalia que o programa de biodiesel terá forte
impacto no campo, e procura desenvolver mecanismos para estimular a entrada, de
forma qualificada, da agricultura familiar nessa cadeia produtiva. De outro,
importantes organizações do movimento dos pequenos agricultores, como a
Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (Contag), reconhecem os
esforços do governo, mas apontam algumas lacunas consideradas importantes.
O principal trunfo do MDA para garantir a
participação dos pequenos agricultores na expansão da produção de biodiesel foi
a criação do Selo Combustível Social, concedido às empresas que compram
matéria-prima junto às cooperativas, sindicatos e associações de trabalhadores
ligados à agricultura familiar. Por determinação do governo, oitenta por cento
do biodiesel produzido a partir de 2008 terá de ser obrigatoriamente oriundo de
empresas que detenham este selo. As empresas certificadas também terão redução
no pagamento de PIS/Cofins, fato que faz com que o interesse do mercado pelo
selo social seja grande. O tempo urge, pois os quatro leilões virtuais para a
compra do biodiesel que será usado no ano que vem acontecerão em novembro e
dezembro próximos.
“O Selo Combustível Social foi a forma que o
governo brasileiro encontrou para estimular a parceria entre as indústrias de
biodiesel e os agricultores familiares”, afirma Arnoldo de Campos, que é
diretor de Geração de Renda e Agregação de Valor do MDA. Segundo ele, as empresas
interessadas em obter o selo e investir na produção de biodiesel vêm de
diversos segmentos industriais: “Existem empresas do setor de combustíveis, do
setor químico, petroquímico, dos óleos vegetais, cooperativas e empresas
estatais, como a própria Petrobras”, diz.
Atualmente, segundo Campos, existem 21 empresas
espalhadas pelo país que já obtiveram a certificação do Selo Combustível
Social: “Juntas, elas já somam uma capacidade de produção de quase 1,6 bilhão
de litros de biodiesel por ano”, diz. As rodadas de negociações entre as
indústrias e as organizações representativas dos agricultores acontecem todos
os anos, a cada início de safra.
“Agora mesmo nós estamos encerrando o ciclo de
negociações da safra 2007/2008. Durante o processo, as cooperativas e os
sindicatos negociam matérias-primas para a produção do biodiesel. Negociam os
grãos e, em alguns casos, até mesmo o óleo vegetal é comercializado pelas
cooperativas. São os agricultores que definem os preços, as condições de
entrega e as quantidades que serão negociadas para cada estado, região ou pólo
produtivo. Daí se tira o cronograma daquela safra”, explica Campos.
A safra 2006/2007, segundo o dirigente do MDA,
foi encerrada com 540 mil hectares plantados com oleaginosas pelos agricultores
familiares: “Tivemos cerca de 97 mil famílias participando de alguma etapa da
cadeia produtiva, sobretudo a produção de matérias-primas”, diz. Metade dessas
famílias está localizada na Região Nordeste e produz numa área de 130 mil
hectares. Em segundo lugar vem a Região Sul, com cerca de 30 mil famílias
camponesas associadas à produção de biodiesel. As principais oleaginosas
plantadas pelos pequenos agricultores são a mamona, o girassol, a soja, a palma
e a canola.
Contag aponta “sérios
problemas”
O Secretário de Política Agrícola da Contag, Antoninho Rovaris, reconhece a importância política do sistema de leilões e de concessão do Selo Combustível Social, mas demonstra algumas dúvidas sobre a eficácia do projeto de inclusão dos trabalhadores da agricultura familiar na cadeia produtiva do biodiesel que está se desenhando: “Nós enxergamos, a princípio, os esforços políticos da SAF (Secretaria de Agricultura Familiar) do MDA como muito positivos. Porém, nós não sentimos o mesmo empenho da SAF no governo como um todo, nem mesmo em alguns setores do próprio MDA. Quem está tentando viabilizar a parte prática da inclusão dos pequenos agricultores no biodiesel somos nós mesmos trabalhadores”, diz.
Rovaris cita os pontos que a Contag considera
ainda falhos no programa do governo: “Nós temos até o momento problemas sérios
de inclusão dos agricultores no Programa Nacional de Fortalecimento da
Agricultura Familiar (Pronaf), temos a questão do zoneamento agrícola, temos o
problema do endividamento e da dificuldade de acesso ao crédito. Além disso, a
pesquisa não acompanhou as necessidades atuais da produção de biodiesel, ou
seja, não temos sementes certificadas para praticamente nenhuma das oleaginosas
requeridas pelo aumento da demanda. Entendemos que o esforço político do
governo está acontecendo, mas não está acontecendo o esforço prático no sentido
de criar as condições mínimas de inserção da agricultura familiar dentro do
programa nacional de biodiesel”, diz.
Governo promove
reuniões
Arnoldo de Campos pondera, lembrando que o
programa de biodiesel é novo e está apenas em sua segunda safra: “É natural que
durante a implementação apareçam vários problemas, e nós no governo estamos
conscientes. O Pronaf, por exemplo, está todo pronto para financiar as
oleaginosas, mas os agentes financeiros, o zoneamento agrícola, a capacidade de
elaboração de projetos por parte dos próprios agricultores e suas organizações
não têm permitido um acesso na quantidade e na qualidade desejadas”, lamenta.
Segundo Campos, o governo já atua para sanar
essas dificuldades: “O governo está promovendo reuniões entre agricultores,
empresas e bancos para que se possa agilizar o financiamento da próxima safra.
Nossa expectativa é ter um maior número de agricultores conseguindo acessar o
Pronaf. Isso é muito importante para que eles possam utilizar as melhores
tecnologias de cultivo e tenham condições de manter o funcionamento dessas
culturas durante o período todo em que elas são desenvolvidas”, diz.
Em relação à certificação das sementes, o dirigente
do MDA faz outra ressalva: “Houve uma expansão muito grande da área plantada
com oleaginosas que não eram tradicionalmente cultivadas em grande escala no
país, como o girassol, a mamona e o dendê. Então, é preciso ainda produzir as
sementes básicas dessas oleaginosas, que depois serão transformadas em sementes
que irão para o comércio”, diz. Campos lembra que o governo, através da Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), também já trabalha para superar
rapidamente esse obstáculo.
Fonte: Envolverde/Agência Carta Maior
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